sexta-feira, 18 de setembro de 2026

A Instrumentalidade Humana V - A Solidão da Consciência

Nossas consciências formam um escudo ao nosso redor, uma espécie de Campo A.T., que mesmo sendo quebrado em alguns momentos raros, nunca pode ser desfeito. Isso porque nos fechamos tão dentro de nós mesmos que se tornou praticamente impossível um alcançar o âmago da existência do outro.

Talvez “nos fechamos” ainda seja uma expressão indulgente, porque pressupõe que alguma vez estivemos abertos. Talvez o problema seja pior. Talvez não tenhamos construído posteriormente essa fronteira: talvez tenhamos despertado para a consciência já do lado de dentro dela.

Em Neon Genesis Evangelion, o Campo A.T. pode ser lido justamente como uma das representações mais radicais desse dilema existencial. Ele não é apenas aquilo que impede a aproximação; é também aquilo que delimita um indivíduo. Destruí-lo completamente não significaria simplesmente permitir que duas consciências finalmente se compreendessem. Significaria colocar em dúvida a própria distinção entre elas.

Na busca para preencher esse vazio o homem se fechou em si mesmo. Se esqueceu do amor, e no vazio se angustiou. E é essa angústia que é experimentada pelos homens desde o início dos tempos. Um pai não entende seu filho, um amigo não entende o outro, um namorado não entende seu parceiro.

Schopenhauer transformou esse paradoxo numa pequena parábola cruel. Como ouriços num dia frio, os homens aproximam-se procurando calor; ao aproximarem-se, ferem-se com os espinhos uns dos outros; afastam-se para escapar da dor e tornam a sentir frio. Aproximam-se novamente. Ferem-se novamente. Não há distância perfeita. Há apenas diferentes proporções de frio e ferimento. Evangelion praticamente constrói uma cosmologia sobre essa imagem.

Apesar de todos os esforços, apesar de toda declaração de sensibilidade, cada pessoa vive num universo único, numa dimensão pessoal, inalcançável para todos os outros e impossível de ser vista, compreendida, abarcada ou tocada por qualquer um que seja.

Em outras palavras, estamos sozinhos. Somos sozinhos e nada pode mudar isso.

Há uma diferença entre estar sozinho e ser sozinho. O primeiro admite circunstância. O segundo pretende definir condição. Parece complicado? Fica ainda pior.

É essa segunda afirmação que interessa aqui, justamente porque é a mais extrema. Não estou dizendo apenas que os outros falharam em alcançar-me. Estou suspeitando que ninguém poderia fazê-lo completamente, ainda que possuísse toda a bondade, paciência e inteligência do mundo.

Posso explicar uma dor durante horas. Posso indicar sua origem, descrever sua intensidade, comparar suas sensações, revelar as lembranças que desperta. O outro receberá palavras. A dor continuará comigo.

Talvez aquela teoria, a da Instrumentalidade Humana, possa resolver nossos problemas, mas até que alguém consiga uma forma de nos levar àquele estado inicial, aquele útero primitivo que perdemos muito tempo atrás, continuaremos a viver nos ferindo e machucando uns aos outros.

A imagem do útero é particularmente perturbadora porque transforma a salvação numa regressão. Antes da separação. Antes da linguagem. Antes da necessidade de dizer “eu” e “você”. Antes de existir alguém suficientemente diferente de mim para que pudesse abandonar-me.

A Instrumentalidade oferece então uma espécie de retorno impossível: não aprender a conviver com a separação, mas desfazer a condição que tornou a separação possível. Se nascer significa separar-se, a solução final seria, em algum sentido, desnascer.

Esse exemplo do ferimento é o que melhor nos fala dessa impossibilidade de compreensão. Por mais que uma dor seja profunda em uma pessoa, nenhuma empatia é capaz de nos fazer compreender de fato essa dor.

Tudo o que essa empatia é capaz de fazer é imitar uma possível reação imaginária àquela dor, aquela reação, e isso é algo triste demais de se reconhecer, mas que deve ser admitido.

Seria excessivo afirmar, fora deste estado de espírito, que toda empatia é falsa. Mas há uma afirmação mais precisa e talvez ainda mais sombria: nenhuma empatia transforma a experiência do outro em experiência minha.

Posso sofrer porque você sofre. Ainda assim, não sofro exatamente o seu sofrimento. Produzo dentro de mim uma resposta àquilo que consigo perceber de você. Mesmo a compaixão mais sincera permanece condenada à mediação. Há uma porta que não se abre.

Ou, pior: talvez não haja porta alguma. Talvez tenhamos desenhado uma na parede porque a ideia de uma parede absolutamente cega seria insuportável demais. Todas as nossas tentativas de comunicação, principalmente as artes, são inúteis frente a esse obstáculo intransponível.

Funciona mais ou menos assim: quando um de nós, artistas, se propõe a expressar algo de seu interior, do íntimo de sua alma, através de uma forma externa, ele acaba por desinteriorizar seus sentimentos. O que estava antes no plano das ideias se materializa então no plano tangível, na forma da partitura de uma música, de uma escultura ou de um texto.

No entanto, a nossa deficiência em comunicação é tão grande que essa obra se torna incompreensível a todos que a contemplam. Por mais que nos aproximemos do real significado delas é sempre um significado aproximado.

Não real.

Aqui a palavra “inúteis” deve conservar toda a brutalidade que possuía quando foi escrita, embora ela também precise ser entendida corretamente. A arte não seria inútil porque nada comunica. Seria inútil diante de uma exigência impossível: transportar intacta uma consciência para dentro de outra.

A obra comunica.

Mas aquilo que comunica já é forma.

E forma é seleção, perda, transformação.

O sentimento convertido em palavra já não é simplesmente sentimento. A angústia convertida em acorde já não é simplesmente angústia. A experiência transformada em imagem tornou-se outra coisa, capaz de sobreviver ao sujeito justamente porque deixou de coincidir inteiramente com ele.

Por exemplo, mesmo depois de tanto tempo, tenho certeza de que ainda não compreendo os sentimentos de Tchaikovsky ao compor sua Sinfonia Patética. Todas as interpretações que fiz dessa obra foram fruto dos sentimentos que eu tinha naquele momento, não a alma do compositor que conseguiu chegar até mim através da mesma. No máximo pude captar nuances do mesmo ou do regente. Mas nada além disso. A essência da obra, o sentimento do coração dele está para sempre perdido, fora do meu alcance ou de qualquer outra pessoa. Esse talvez seja um dos exemplos mais cruéis da sobrevivência da arte.

Posso ouvir Tchaikovsky. Não posso ouvir como Tchaikovsky via Tchaikovsky nas linhas daquela partitura.

Posso reconstruir contexto, consultar cartas, estudar estrutura, acompanhar modificações no manuscrito, comparar interpretações e conhecer cada compasso da Sexta Sinfonia. Continuarei sem possuir aquele instante interior em que determinada escolha musical apareceu para ele como necessária.

O homem desaparece. A obra permanece. E aquilo que permanece multiplica interpretações precisamente porque a consciência capaz de encerrá-las numa experiência originária já não está acessível. Talvez toda obra de arte seja também um túmulo extraordinariamente eloquente.

Por isso gosto dessa comparação que diz que somos dimensões paralelas, que nunca se cruzam, nunca se encontram, nunca se misturam. Vivemos todos em mundos diferentes. E às vezes esses mundos desmoronam, despencam.

Lacan acrescentaria uma ironia a essa solidão. Mesmo aquilo que utilizamos para atravessá-la, a linguagem, não nos pertence inteiramente. Recebemos palavras antes de compreendermos o que significa possuir uma interioridade. Tentamos dizer aquilo que somos utilizando signos que já circularam pela boca de milhares de mortos e continuarão circulando depois de nós. Queremos pronunciar alguma coisa absolutamente nossa. Usamos palavras de todos.

E ainda assim esperamos que alguma combinação delas consiga realizar o milagre de nos tornar perfeitamente compreensíveis.

De fato, tudo que tem forma um dia deve deixar de existir e ceder sua matéria para outra forma, já nos ensina aquela lei da química, ou da física. Nossos universos também. Atualmente meu universo se encontra em colapso.

Colidiu-se com outro universo e não aguentou o poder que resultou dessa explosão. Agora suas estruturas mais básicas se destruíram completamente, e o mundo despenca sobre mim. O problema é que ninguém vê um universo interior desabar.

Do lado de fora, uma pessoa continua andando, respondendo, talvez trabalhando, talvez sorrindo, talvez dizendo automaticamente que está tudo bem. Do lado de dentro, estrelas podem estar morrendo.

Essa disparidade entre aparência e experiência constitui outra representação recorrente dos dilemas morais e existenciais em Evangelion. O sofrimento não possui uma escala externa confiável. Uma pessoa aparentemente funcional pode experimentar a própria consciência como ruína, enquanto aqueles que a observam recebem apenas fragmentos comportamentais e tentam reconstruir o que acontece atrás deles.

Os outros são capazes de entender isso? Não mesmo!

A empatia deles é fingida e superficial. Tal qual a minha com os problemas dos outros.

Tudo o que as pessoas são capazes de fazer é julgar, apontar e tirar suas próprias conclusões sobre uma dor sem saber o quanto ela dói de verdade.

O desespero possui aqui uma crueldade democrática: não acusa apenas os outros. Inclui a si mesmo.

Não sou vítima de uma humanidade incapaz de compreender-me enquanto possuo misteriosamente uma compreensão privilegiada dos demais. Estou preso à mesma deficiência que condeno.

Você não consegue entrar em mim. Eu não consigo entrar em você. Podemos trocar descrições das nossas prisões e continuarmos presos.

Mas as pessoas não pensam desse jeito. Não medem o peso de suas palavras antes de as dizerem e sequer são capazes de perceber também o quanto elas pesam, machucam e ferem. Somos assim, insensíveis, só conseguimos compreender a nós mesmos e ignoramos todo o resto do mundo que nos cerca.

Somos assim. Classificamos, julgamos, mas não compreendemos. E talvez julgar seja justamente uma maneira rápida de eliminar aquilo que não conseguimos compreender.

Dar um nome.

Colocar numa categoria.

Explicar.

Encerrar.

“Carente.”

“Fraco.”

“Dramático.”

“Insensível.”

“Doente.”

O nome produz uma sensação de domínio sobre aquilo cuja interioridade permanece inacessível. A classificação não precisa conhecer o outro; basta fazê-lo caber. Somos capazes de sentir dó do cachorrinho que morre no filme da Sessão da Tarde mas ignoramos o pobre faminto que segura nossa roupa implorando por um prato de comida.

Irônico, não?

As criaturas ditas racionais têm mais compaixão com os irracionais do que com seus semelhantes. Há nisso uma perversidade adicional: a dor representada pode ser mais suportável justamente porque está sob controle.

O filme termina. A música sobe. O animal fictício morre na distância segura da tela. A miséria concreta, ao contrário, toca nossa roupa. Possui cheiro. Possui voz. Exige resposta. O sofrimento real tem a inconveniência moral de pedir alguma coisa de nós.

Infelizmente, até o dia em que conseguirmos encontrar uma forma de superar essa questão de compreensão continuaremos a colidir e a destruir uns aos outros.

Impiedosamente.

Schopenhauer talvez dissesse que esperamos demais quando imaginamos que o conhecimento mútuo pudesse desfazer o conflito fundamental da existência. A individuação coloca cada ser diante do mundo a partir de seus próprios interesses, carências e dores. A vontade não cria uma assembleia harmoniosa de consciências razoáveis. Cria seres que necessitam, desejam, disputam, perdem e voltam a desejar.

Freud acrescentaria que a civilização não elimina a agressividade. No máximo tenta administrá-la, reprimi-la, desviá-la, convertê-la em formas menos imediatamente destrutivas. O outro não é apenas objeto possível de amor. Pode tornar-se obstáculo, rival, instrumento ou inimigo.

Assim, mesmo que conseguíssemos falar com clareza perfeita, ainda restaria um problema muito mais desagradável: compreender alguém não significa necessariamente desejar-lhe o bem.

Podemos compreender exatamente onde dói. E ferir precisamente ali. Essa é talvez a objeção mais cruel à fantasia de que todos os conflitos humanos sejam simples defeitos de comunicação.

Não posso deixar de ceder ao meu lado sonhador e não imaginar um mundo onde as pessoas não se machuquem e onde amar não seja errado. Onde sentir não seja exagero ou capricho, e onde possamos ajudar uns aos outros de verdade. Onde palavras e canções de amor toquem de fato os corações, e não apenas despertem emoções.

Um mundo de verdade, um mundo de compreensão. Mas nesse ponto da descida, até esse mundo imaginado parece uma acusação. Quanto mais perfeitamente consigo concebê-lo, mais grotesca se torna a distância que me separa dele.

O sonho não ilumina. Contrasta.

Não oferece saída. Fornece apenas outra medida para o fracasso.

Um mundo em que ninguém se fere. Um mundo em que ninguém abandona. Um mundo em que a palavra chega exatamente ao lugar de onde outra palavra partiu. Um mundo em que amar não implica entregar ao outro a capacidade de destruir-nos.

Talvez seja justamente isso que a Instrumentalidade promete.

E talvez o preço de um mundo em que nenhuma consciência seja inacessível seja a inexistência de consciências verdadeiramente separadas. Aqui a representação dos dilemas em Neon Genesis Evangelion alcança uma de suas formas mais negras.

O Campo A.T. é intolerável porque me separa de você. Sua ausência absoluta também é intolerável porque, sem ela, já não existem “eu” e “você”. Com a fronteira, solidão. Sem a fronteira, dissolução. Entre ambas, ferimento.

Não há neste ponto qualquer síntese. Não há reconciliação. 

Há apenas duas consciências que desejariam tocar-se e descobrem, precisamente porque são duas, que jamais poderão ocupar o mesmo lugar.

E talvez esse seja o aspecto mais cruel da individuação: aquilo que torna possível amar alguém é exatamente aquilo que impede que esse amor elimine definitivamente a distância entre nós.

"Você é um concha vazia com uma alma falsa criada por um homem chamado Gendou Ikari. Você é um objeto que pretende ser humana. Olhe profundamente dentro de si mesma. Você nota a presença quase intangível e invisível que espreita sob o seu desperto no interior dos seus sonhos mais sombrios. É lá que está sua verdadeira identidade!" (Neon Genesis Evangelion)

Continua

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